sábado, 20 de dezembro de 2014

Um pouco de espera.

Sentei-me na calçada e esperei. Já passavam-se das 22 horas e a casa estava no mais absoluto silêncio. Todos estavam dormindo quando saí de lá. Na rua, apenas as luzes dos postes reluziam. A lua não estava cheia. As nuvens começaram a cobrir a outra metade visível dela. Os sons de grilos e sapos ressonavam por todo o ambiente. Onde eu morava, havia poucas casas e raramente passava um carro. Também não havia perigo em estar ali, sentada na calçada àquela hora da noite, a não ser que algum animal resolvesse passar.
Apoiei meus curtos braços sobre o joelho e minha cabeça ficou descansada sobre minhas mãozinhas. O vento da brisa fria percorria todo o meu corpo e fazia-me estremecer. Havia esquecido o agasalho. Mas naquele momento, nada mais importava. Eu só queria que ele chegasse logo. Meus avós haviam me alertado que ele não viria. Não acreditei. Como um pai fugiria deixando seu filho de sete anos para trás? Minha mãe tinha morrido pouco tempo antes e dias antes meu pai tinha me deixado na casa dos meus avós maternos, dizendo que voltaria no dia 20 de julho. Na ocasião, já era dia 31, mas eu ainda tinha esperança. Meu herói não me decepcionaria.
Pensei nos momentos bons que tivemos juntos, apesar de poucos. Ele batia em minha mãe, mas até então eu pensava que isso era natural, visto que eu também apanhava. Em pensamentos confusos adormeci.
Não posso precisar o tempo em que fiquei ali, mas o que me lembro foi que acordei com os pingos de chuvas que caiam do céu escuro. Junto com eles, pequenas lágrimas desciam pelo meu rosto infantil. Entendi que ele não viria mais. Não entrei imediatamente em casa. Deixei que a chuva levasse toda a esperança que ainda tinha de voltar a ver meu pai. Não sabia o que ele tinha feito para que necessitasse fugir, mas decidi, naquele momento de decepção, que não seria como ele. A figura de herói se dissipou da minha mente e entrei em casa, ainda decepcionado, depois de tantos momentos de espera.

~Kate