quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Maldade que consome histórias


    O fogo alastra-se rapidamente pela mata, devorando tudo o que há ao seu redor. Os tons de vermelho, amarelo e laranja das chamas confundem-se com o negrume da fumaça. Esta, por sua vez, espalha-se pelo céu e adentra meu ser, fazendo-me tossir.
   Toda essa cena ainda está na minha cabeça. Eu estava ali, parada, a poucos metros de distância do incêndio. Não conseguia acreditar que parte do meu passado estava sendo consumida pelo fogo. Porém, eu era incapaz de salvar aquelas árvores. Como tantos outros, tornei-me mera observadora de uma imensa devastação.
     Naqueles instantes meus pensamentos vaguearam e retornei à minha infância. Lembrei-me dos bons e maus momentos que ali passei, correndo pela mata. Criei as mais diversas situações e escondi diversas vezes naquele local. Minhas lágrimas, sorrisos, enfim, quase todas as emoções, estavam ligadas ao que se tornava montões de cinza: a mata.
Pensei na maldade das pessoas que provocam incêndios. Provavelmente elas se esquecem da existência de serem que dependem do verde para sobreviver. Não se importam nem consigo mesmos. E seus objetivos? Criar pastagens ou construir prédios? Que pensamentos vãos se comparados ao imenso bem que a flora proporciona. Tudo isso é esquecido quando acendem o fósforo ou o isqueiro.
   Essa tamanha ignorância consegue acabar com quilômetros de histórias em ínfimos minutos. As leis não são capazes de conter esses assassinos. Talvez se ouvissem o que ouço teriam compaixão. Os gritos e clamores da natureza devastada. Eu a escuto implorando por piedade. Mas eles não são capazes de ouvi-la. Nem mesmo sentem seus próprios pulmões gemendo com a fumaça tóxica que lhes é oferecida pelo fogo.

     Essas reflexões fizeram uma lágrima cair por meu rosto e secar-se com o calor do fogo próximo. No mesmo minuto ouvi o assombroso barulho de sirenes. Eram os bombeiros que vieram tarde demais para salvar a mata. Quando eles aproximaram-se, fui obrigada a sair dali e romper com o meu passado. Ali iniciava uma nova etapa de minha vida: sem mata, sem alegria, sem histórias. Tudo foi consumido pelo fogo.

~Kate